“Que mentir para si mesmo é sempre a
pior mentira” Legião Urbana
Freud não estava errado
quando dizia que somos frutos da nossa história familiar, do nosso passado, do
contexto em que fomos criados. No entanto, podemos mudar o rumo da nossa
história a qualquer momento. Porém, se optamos por aceitar o determinismo
psíquico ou a própria teoria do inconsciente de Freud para justificar o que
somos e fazemos hoje, usamos de má-fé.
Má-fé é um conceito que
foi criado por Jean Paul Sartre, filósofo existencialista do século 19. O
existencialismo considera cada ser humano como único, e senhor absoluto do seu
destino e de suas atitudes. Salienta a subjetividade, a responsabilidade e a
liberdade individual do homem, que este só pode esquecer por má-fé.
No seu artigo Filosofia da
Liberdade, Sérgio Amaral Silva diz que para Sartre a má-fé é um mecanismo pelo
qual o homem procura se defender da angústia que a consciência da liberdade
provoca. Todavia, por meio dessa defesa equivocada, nos distanciamos de nosso
projeto pessoal, nosso projeto de vida – do que somos e queremos ser –
incorrendo no equívoco de explicar nossos fracassos pela interferência de
fatores externos como Deus, o destino, os astros ou a sorte. Nesse contexto,
inclusive a teoria do inconsciente, formulada por Sigmund Freud (1856- 1939),
era considerada um exemplo de má-fé. Visto que, de acordo com Freud, as pessoas
experimentam repetidamente pensamentos e sentimentos que são tão dolorosos que
não podem suportá-los. Tais pensamentos e sentimentos (assim como as
recordações associadas a eles) não podem ser expulsos da mente, mas, em troca,
são expulsos do consciente para formar parte do inconsciente, são reprimidos.
Freud comparou a mente
humana com um iceberg, um grande bloco de gelo flutuante onde a ponta que fica
visível seria a consciência, enquanto que a imensa porção submersa
representaria o inconsciente, contendo os traumas, frustrações, vontades
reprimidas e inconfessos desejos. Esse conteúdo reprimido não consegue acessar
diretamente o consciente, mas acaba emergindo pelas manifestações do
inconsciente que são: os sintomas, sonhos, chistes ou atos falhos, presentes no
que ele chamou de psicopatologia da vida cotidiana. Desse modo, na visão freudiana,
o inconsciente é um enorme subterrâneo de forças vitais invisíveis, motivando a
maior parte dos pensamentos e ações conscientes do homem, além de ser o
responsável por grande parte dos distúrbios psíquicos. Porém, é o que nos
mantêm na “dita normalidade” que a sociedade, ou seja, nós homens determinamos.
A questão não é confrontar
o existencialismo com a teoria Freudiana, mas entender o homem e suas escolhas
por meio dessas duas correntes representativas. Mesmo o existencialismo tendo
surgido depois de Freud, numa outra época, num outro contexto, o fato do homem
ter que assumir ser o único responsável pelo seu destino, invariavelmente, faz
com que ele passe a viver num estado de angústia, de desamparo e desespero. No
seu livro o Existencialismo é um Humanismo, Jean Paul Sartre, diz que o homem
que se engaja e que se dá conta de que ele não é apenas quem ele escolheu ser,
mas também um legislador que escolhe simultaneamente a si mesmo e a humanidade
inteira, não consegue escapar ao sentimento de sua total e profunda
responsabilidade. Segundo Sérgio Amaral Silva, enquanto está sozinha, a
consciência do homem pode reinar como senhora absoluta de seu destino e
usufruir em plenitude de uma liberdade que desconhece barreiras. Isso se
transforma radicalmente na presença do outro, cuja subjetividade passa a ser
mais uma entre as coisas do mundo. Ao contrário da situação anterior, essa nova
coisa não é apenas mais uma que se oferece passivamente à minha apreciação, mas
ela, ao mesmo tempo, me identifica, não mais como o sujeito que eu era, mas
como objeto de seu mundo. Sou, de certo modo, paralisado pelo meu próprio
olhar. Passo a ser observado e julgado com a liberdade do pensamento alheio,
sobre o qual não tenho nenhum poder ou influência. Ou seja, o outro pode pensar
o que quiser sobre mim, independente da minha vontade ou controle, o que
representa uma ameaça permanente. A liberdade alheia é um perigo para a minha,
que também a põe em risco. No entanto,
esse é o preço a pagar pela escolha de ser o senhor de sua liberdade.
A grande questão é que se
reprimimos, recalcamos, se utilizamos de mecanismos de defesas ou nossas ações
e vontades vem à tona por meio das manifestações do inconsciente – atos falhos,
chistes, sonhos ou sintomas -, existe uma razão para que elas se manifestem
dessa forma. Existe uma razão por agirmos de má-fé. E somos nós que escolhemos.
Descobrir os “por quês” cabe a cada um, se for do seu interesse entender. Uma
das formas de se aprofundar nas suas próprias questões é pela busca do
autoconhecimento, que pode ser feito por meio da terapia, basta ter a coragem
para o encontro consigo mesmo.